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Rajadas
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A primeira tentação perante Rajadas é mesmo a de encarar o livro como um imenso metatexto. Todavia, a tentação nasce menos de uma abordagem imanente das composições do que do conhecimento apriorístico de que Jorge Henrique Bastos levou a cabo, ao longo de anos, em Portugal, um exímio trabalho de crítica literária que o fez conviver com um nú­me­ro incalculável de obras e autores, de textos e sabores. É neste ponto que a epígrafe do Padre Antonio Vieira mostra toda a sua per­ti­­nência, ao afirmar a reversibilidade do comentário e do comentador: o movi­men­to de substituição pressuposto na frase de Vieira resulta numa espécie de des­nu­da­mento do crítico que, no tocante a Jorge Henrique Bastos, parece exprimir a assunção de que o poeta nasce do abandono da con­dição crítica. Através de Vieira, por conseguinte, Jorge Henrique Bastos anuncia a sua metamorfose, e o commentator cede o seu lugar ao auctor. Em termos pre­ci­sos, Rajadas é, então, um complexo palim­psesto, que brada os silêncios do poeta por entre as vozes de outros artistas, não só literários, mas também plásticos, musicais e ci­ne­ma­­­­­to­­­gráficos, na linha do que fizeram, na melhor poesia em língua portuguesa, escritores como Jorge de Sena ou Murilo Mendes. Eis tudo, / o ex-nada: os versos finais do primeiro poema, conduzido pela voz de Guimarães Rosa, constituem talvez a melhor expressão da natu­­reza contraditória desta obra, tão universal quanto pessoal. Nela convivem, graças à hiper­di­mensionalidade desse espaço angélico que é a literatura, D. Dinis e Daniel Faria, Paul Celan e Sylvia Plath, Jorge de Lima e Ossip Mandelstam, Michaux e Bandeira, reunidos pelo vigor das rajadas do poeta, que com o vento percorre conti­­nen­tes e oceanos, eras e séculos.
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