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Nevoeiro
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Nevoeiro, série de poemas que convida o leitor para o percurso místico, para além do idílio — Tateando o véu profundo da neblina, / Esquecido, sem morte e sem alento — é um estudo aprofundado e vivo sobre as formas não mais praticadas da poesia, das cantigas trovadorescas ao alexandrino. Quando encontrou Augusto de Campos, Martí perguntou ao poeta se seria possível dizer coisas novas com formas antigas. No verso livre, essa indagação se sobressai com o jogo da polissemia, — O bramido escatológico/ Perderseá sem ser ouvido;/ Será o último gemido/ Do Sol embriagantelógico. A tentativa de resposta revela uma entrega total às formas, que permitem a transmissão, como propunham os trovadores, de um conteúdo que conjuga palavra, pensamento e música, como em Tremulam as candeias, musicado no raro modo lídio com partitura para voz e acompanhamento da rabeca, inspirado no pergaminho de Vindel, do século xIII. Se a forma da poesia é hoje o verso livre, e o seu tema, a subjetividade confessional, os poemas de Nevoeiro se colocam como uma contraposição. Nesse sentido, o zéjel da poesia de Andalucía ressurge em sua função meditativa no último poema do livro — O último trago / calará o sussurro /de falsos augúrios / dos ventos impuros; — curiosamente, também um aceno ao blasé irônico drummondiano. As travessias são um artifício comum na literatura, especialmente na brasileira, para dar vida a reflexões. Ao se inserir nessa tradição, os poemas de Nevoeiro e suas formas antigas nos transmitem, a cada verso, uma pergunta sincera de um poeta não sobre si, mas sobre o fazer poético.
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